segunda-feira, outubro 18, 2004

Uma flor na sua memória



A Notícia

Chego a casa e dizem-me que a minha professora primária, a Maria Rosa, morreu. Que passou a notícia no rodapé do telejornal. Olho ainda entontecido para a televisão procurando qualquer coisa que já não há, um rasto, um fumo. Subitamente tudo perde gravidade.

Que fazer, que pensar, agora que o luto ainda não começou, agora que aquilo que aconteceu ainda está em suspenso?

A Maria Rosa Colaço foi minha professora primária, da segunda e até quase ao fim da quarta classe. Dizer isto é muito pouco. Não é nada. Se fosse poeta poderia dar-vos a pessoa que conheci, mas não sou. Só os poetas, alguns poetas, pouquíssimos, se aproximam da verdade. O resto, nestas circunstâncias, é obituário, coisa fúnebre e vazia, sem relação sequer com a morte.

Assim como são as nuvens que revelam o céu, lança a morte uma derradeira luz sobre a vida. É isso que devo procurar.

Por razões que não conheço completamente, mas irremediáveis, depois que se despediu nunca mais a vi. As recordações que dela tenho são as do miúdo de 8 e 9 anos que fui e essas recordações, fotográficas, permanecem intocadas. Praticamente nem as troquei com outros, não as transformei.

Li já não sei onde que sob alguns continentes persistem enormes jazidas de água potável a que a Humanidade um dia recorrerá. Nos meus dias mais negros, daqueles que toda a gente tem, recorro à água pura desses momentos.

Gostaria de poder pousar uma flor sobre a memória da Maria Rosa mas temo não saber como fazer. O mais que posso tentar é usar este espaço (que é vosso também) para vos dar alguns fragmentos da vida que vivemos, ela jovem professora, eu um puto de olhos arregalados ao que me ia acontecendo. Na esperança de que isso revele a outros a pessoa da Maria Rosa. E sem grandes preocupações de objectividade, que a verdade destas coisas não passa muito por aí.

Perdoem-me se para o fazer falo de mim, mas neste momento não consigo separar uma pessoa da outra.

Que este espaço sirva para que todos aqueles que privaram com a Maria Rosa, na Escola ou fora dela, possam aqui deixar uma recordação, uma fotografia, um desejo, uma ideia. E que com isso possamos multiplicar, cada um à sua maneira, a pessoa que agora me dizem que desapareceu. A sua obra, em grande parte, somos nós.

Deixo-vos assim alguns estilhaços do que intensamente vivi com a professora Maria Rosa Parreira Colaço.







O Antes e o Depois

A minha primeira classe começou em 7 de Outubro de 1957, num segundo andar que ainda existe em Cacilhas. A professora que nos coube em sorte era desleixada e nada carinhosa. Evitava olhar para ela. Preferia a janela onde me perdia olhando o telhado em frente e uma nesga de céu: Ervas lentas por entre as telhas, nuvens que passavam, pardais breves, sons da rua lá em baixo. E o tempo sempre parado. Cheguei a balouçar os pés, que não chegavam ao chão, na esperança de o acelerar. E a carteira com tinteiro, e o meu parceiro, balouçavam também. Em vão.

Na parede maior havia um cartaz de prevenção de acidentes, um poster em vários quadros. No primeiro via-se um operário a sofrer um corte numa máquina. No seguinte percebia-se que apenas lavava a ferida com água da torneira, o que o iria infectar. No quadro final, a manga do casaco vazia, enfiada no bolso, fazia dele já um amputado. Mil vezes revi a sequência sempre com o mesmo resultado.

Em frente, duas fotografias. Salazar e Craveiro Lopes. E um crucifixo oficial ao meio. Um Mapa-Mundi, também. Quadro, régua, transferidor. Um armário com uma panóplia de objectos que a princípio pensei serem de farmácia – os litros, os centilitros e os mililitros. O chão era podre. Divertimentos só dois. O primeiro, o mais comum e saborosíssimo: Falar, falar, falar, falar muito, com o colega de carteira, com os da frente, com os de trás, falar sobre tudo, até que um grito estalasse no ar e nos calasse. O segundo: Sorrateiramente deixar cair um pedaço de pão para uma frincha que havia no chão. Por vezes nem dava tempo de vermos a cabecita do rato a levá-lo. Havia um outro divertimento, semanal e mais pessoal, apontar os resultados do campeonato, somar os pontos em gráfico de termómetro, e concluir aliviado que o Benfica smpre ia à frente do Belenenses. Os outros clubes não interessavam. Depois tentava perceber onde é que por carga de água ia a aula.

A primeira aula foi marcante. De caderno de duas linhas aberto, por estrear, tivemos de molhar pela primeira vez o aparo no tinteiro azul e escrever, nós que não sabíamos escrever, «Cacilhas, 7 de Outubro de 1957». A professora escrevia no quadro e nós lá íamos desenhando aquilo à vista, sem compreender o que fazíamos, tentando reproduzir aqueles sinais de giz, uma curva para cá, uma volta para lá, pior que chinês. Claro que não coube na linha. Deu uma volta, sobrou horrendamente para baixo, tudo inclinado. Depois borrões, dedos sujos. E medo pelo resultado. Eis a primeira aula. Que só correu bem aos repetentes.

A professora quase todos os dias virava um aluno contra a parede, de castigo. Ou lhe enfiava um capuz de cartão com orelhas de burro que ela própria fazia. Nesse caso era colocado à nossa frente. Lembro-me do esgar do mais alvejado. Tinha-lhe morrido a mãe e na escola era o burro. Evitava olhar.

Numa manhã, à entrada, as mães rodearam a professora e perguntaram-lhe bajuladoras: “Então, minha senhora, vem cansada?”. E ela respondeu prontamente:”Enquanto tiver estas mãos para bater nunca me hei-de cansar”, e abriu caminho por entre as mães, os alunos e a carroça da sopa que os soldados do quartel de Almada nos traziam todos os dias. Quase aplaudida.

Se vos relato isto é porque dois anos depois, agora já na terceira classe mas com a Maria Rosa, regressaríamos àquelas mesmas instalações, mas as paredes, o chão, o quadro preto, tudo se haveria de transformar. Como que por dentro. Definitivamente.

Da primeira professora, por muito que me esforce, só recordo o que contei. Nem o nome, nem as feições, nem a voz. Da segunda hei-de me recordar de tanta coisa que por vezes penso que me recordarei sempre de tudo.

Em 1958, agora na segunda classe e por alternância, o edifício destinado à turma foi o de Almada, por trás da Praça Gil Vicente, onde eu morava. De modo que no dia 7 de Outubro saltei o muro do meu quintal e fui para escola. Sentámo-nos. Três meses de férias tinham apagado qualquer rasto de tabuada e de escrita. Apenas os meus colegas eram os mesmos, menos os que tinham ficado para trás e estariam a essa hora a repetir a humilhação inicial.

Na sala, à nossa espera, estava uma professora muito jovem, bonita. Com as mãos nos bolsos, o polegar de fora, como a vi tantas vezes fazer, misto de timidez e de determinação, esperava que nos sentássemos. Enquanto amainava a barafunda de 40 alunos a regressarem das férias grandes, afastou o estore de palhinha e foi olhando para o Alfeite, o Seixal, o Barreiro, juntando o que via ao que já sabia . Depois pôs um sorriso e disse com vivacidade o seu nome. E mais, que queria ser nossa amiga. Surpresa, muita surpresa e incredulidade. Mas havia de ser assim. A tal ponto que as mães demonstravam ciúmes dessa professora de quem os filhos diziam tão bem e decidiam vir à escola ver com os seus própros olhos o que se estava a passar.

Que saudade.




Almada Negreiros, "Auto-retrato" (1943)

Sítios. O Café Central

Levou-me a muitos sítios que eu nem sabia que existiam. Exposições, colóquios. Conversei com pessoas que nunca soube quem eram mas que traziam nelas um outro vento, vestígios de outros mundos. Foi ela que me mostrou pela primeira vez reproduções de Picasso e do Almada Negreiros. A Guernica, essa, várias vezes.

Mas hoje leva-me, como em muitas outras ocasiões, ao Café Central. O meu pai dá-me dez tostões “para o que for preciso” mas ela não me deixa pagar o meu bolo de arroz, que aliás acabava por durar a tarde inteira. Pega nos seus papéis e trabalha. Eu olho. É elegante como não há assim no café.

Chega entretanto o escritor Romeu Correia, baixo, atarracado, forte que nem um boxeur, e sempre de laço. Talvez o primeiro laço de Almada. Traz fólios do seu novo livro (Trapo Azul?, Bonecos de Luz?). Eu nunca tinha visto um fólio, essa espécie de intimidade do livro, uma folha enorme que quando sucessivamente dobrada dá um caderninho, e um conjunto de caderninhos colados dá depois um livro. Ele abre um e as folhas impressas desdobram-se e ficam como que descontroladas, uma virada para norte, outra para leste, etc.., espalhadas e juntas. Vou olhando. Ele emenda as gralhas, furioso. Risca por cima da letra tipografada, sobre aquele quase livro, o que para mim é um sacrilégio. A certa altura vê que o observo, pára, dá-me uma folha em branco e pede-me que escreva um poema. E eu, envergonhado, escrevo qualquer coisa que envolve “o som grisalho dos pinheiros”. Acabo rapidamente e baixo os olhos na direcção do meu eterno bolo de arroz. Mas ainda me dá para perceber que o Romeu e a Maria Rosa trocam olhares que intrepreto assim: “Vês, vês, as crianças podem escrever”.

Quando muito mais tarde surgem textos destes no livrinho A Criança e a Vida, numa compilação de muitos alunos e de várias escolas, houve quem não acreditasse . Magoou muito mas até se percebia. Pudera, se nem os adultos escreviam quanto mais as crianças. Mas era tudo verdade. Quando o meu amigo José Inácio escreveu “o amor é não haver polícias” estava a referir-se ao pai, preso político. Conheci muito bem em que condições viviam.


Sítios. O Café Central (2)

À mesa do café como tantas outras vezes. Ela acabou o que tinha a fazer. Lembro-me que a porta giratória rodava algo descentrada e por isso ginchava um pouco. Tentei aplicar à situação um termo técnico que vinha definido nos livros de mecânica do meu pai, as minhas primeira bíblias. Qualquer coisa relacionada com “veios de excêntricos”. Mas não me fiz entender. Então ela põe uma folha A4 no centro da mesa, puxa da sua bic preta e escreve uma estrofe. E eu, a vermelho, escrevo outra. E assim sucessivamente, à desgarrada. Ou como na escrita automática dos surrealistas. Duas páginas cheias. As linhas dela rasgadas e belas. No fim assinámos com enorme importância.


Embora a forma fosse a de um poema não era um poema. Era uma brincadeira. Ou era um poema. E agora? Ainda hoje o tenho.


Santinhos

Hoje estamos na sala quando de repente entra um padre. A aula fica em suspenso da nova autoridade. A Maria Rosa passa para segundo plano, como se tivesse chegado um inspector do ministério. Pergunta-nos se queremos ver um filme. Exultamos. Um filme de cóbóis gritamos nós imaginando já os índios, os cavalos, o pó na pradaria. Então o padre monta um pequena maquineta na qual coloca um curto rolo de filme que mostra imagem a imagem. Um filme parado. É sobre os sete últimos dias de Jesus na terra. Traz esquemas e tudo, como se desenhado por um engenheiro. Primeiro foi a decepção. Aquilo não era um filme. Sim, porque alguns de nós já tinham ido às matinés da Academia Almadense, ou da Incrível. O Padre lá ia explicando, no primeiro dia isto, no segundo depois foi aquilo, mas aqueles miúdos já estavam habituados a fazerem perguntas. E a obterem respostas. E não se contiveram. “Como sabe que foi assim, se na altura não havia fotografias?”. “O meu pai diz que não foi nada disso”. “Lá em casa dizem que Deus não existe”. Etc.. Pede-se silêncio mas o sururu aumenta. Definitivamente a sessão não resulta e é melhor não continuar. Então o padre recolhe o aparelho fumegante e passa à recolha de fundos, uma venda de santinhos, em cromos. Eram muito poucos os que traziam dinheiro para a escola. Para não fazermos má figura, uma vergonha, quem tinha comprou, quem não tinha prometeu trazer na próxima semana. Mas na semana seguinte muitos de nós voltaram a não trazer tostão nenhum. Insistência. Então a Maria Rosa chamou o padre de parte, mas eu que morava na segunda fila ouvi perfeitamente, e disse-lhe mais ou menos isto: “Olhe, eu já não tenho idade para isto, e eles ainda não a têm”. Não voltou mais. Naquele tempo isto podia-lhe ter custado o emprego.


Sítios. A sua casa.

Hoje leva-me a sua casa. Um pequeno quarto alugado, perto da escola e a duas ruas da minha. Não obstante a proximidade é tudo estranhamente diferente. Espanta-me que um prédio tão próximo do meu possa esconder tanta diferença. Olho intensamente como só os miúdos conseguem. À esquerda uma máquima de escrever, com caixa preta, talvez uma Smith Corona. Em frente a janela. Numa mesa uma caixinha com cigarros, marca LM. “São fracos, são de senhora”, esclareceu-me depois o meu pai, desvalorizando a questão. Livros e papéis, muitos, alguns em francês. A partir daquele momento passei a desejar vir a ser... bancário – era assim que os imaginava, a falar línguas e a escrever à máquina, essa coisa de eleitos. Durante anos namorei uma máquina de escrever que estava na montra de uma casa de penhores, junto aos Bombeiros de Cacilhas, mas custava um conto e duzentos. Voltemos ao quarto. À direira há um quadro inquietante. Em tons de azul nocturno, numa praça de touros vazia, um touro olha-me perplexo. Há-de olhar assim para mim a vida inteira.


Laranja

É uma daquelas intermináveis tardes de verão em que tentamos desgraçadamente resolver problemas que nem os adultos algum dia hão-de ter de resolver. Mete tanques que são alimentados por torneiras várias, cada uma debitando x e y de água por minuto, são 3 horas a que horas estará o tanque cheio. Nas últimas filas da sala que me parecia imensa, há problemas. Professora e aluno discutem. A coisa está feia. Há um castigo. O aluno, um calmeirão, começa a chorar. É dos mais velhos, daqueles quase homens que quando não vão à escola é porque estão a trabalhar. Está muito calor. Ela espera que ele acabe de chorar. Depois senta-se na mesma carteira, descasca uma laranja da baía e comem-na os dois em silêncio. A turma fica em paz.


Tito

Um dia percebemos que o Tito, habitué da esquadra da polícia, que fuma e tem fotografias de mulheres nuas, ronda a escola. Minha senhora cuidado, ele faz isto e faz aquilo. Medo, os putos estão assustados, a aula não pode continuar. Ela sai, fala com ele, pergunta-lhe pela mãe, falam um pouco. De seguida pede-lhe ajuda para umas coisas pesadas que há que fazer na escola, coisa de escadote. Ele acede orgulhoso de mostrar a sua diferença face àquela cambada de putos ranhosos. E depois vai-se embora. De vez em quando volta para patrulhar a escola, para saber se está tudo bem. Quando precisarem é só dizer. E sempre que o avistamos lá fora é gritaria geral na sala.

Se entre os meus colegas tivesse estado um Ettore Scola, um Oliveira, uns irmãos Taviani. Mas não aconteceu. E por isso todas estas vozes que ainda ouço se abafam um pouco mais todos os dias.


Explicações

Se as aulas eram de manhã então dava explicações de tarde, numa pequena garagem em Cacilhas. Tinha explicações não quem podia pagar mas quem precisava. Lembro-me de olhar à minha volta e eram mais os que não pagavam.









Príncipes

Tínhamos um horário na parede. Das tantas às tantas aritmética, depois gramática e assim sucessivamente. Mas nunca aquele horário servia para grande coisa. Quando chegava a vez do Português, para além das preposições (que ainda hoje posso dizer de cor, e se para tanto for desafiado também digo de rajada o sistema montanhoso Galaico-Duriense ou o Montejunto-Estrela), para além dos verbos e dos predicados, para além dos textos do programa sempre cheios de “capelas votivas”, “venerandas figuras” e reis bons de Portugal que lutavam contra os reis maus de Espanha, para além dos milagres avulso como o daquele regaço que na hora certa debitou rosas, depois disso, dizia, acabava quase sempre por puxar de um livro, mas dos dela, ora prosa ora poesia, ora ainda teatro, que nos lia com uma convicção de hipnotista.

Um dia leu-nos o Principezinho. Explicou-nos quem era Saint Exupery, o que fazia sobre o deserto no seu avião e de como em vez de chorar por diversas vezes uma morte quase certa se punha a escrever uma história para dar um livro aos restantes homens. Eu já não vos sei contar como as coisas se passaram mas asseguro-vos que foram muito muito intensas.

A noite do deserto, as estrelas em mapa, o oceano de cima.


Raças Humanas

Idem quando tínhamos de estudar o Mapa Mundi, no qual mal cabia o Império, do Minho a Timor onde o sol nunca se punha. Acabava por falar das culturas africanas. Desenhava as palhotas, falava da comida e da música dessas terras, e do respeito que os homens devem demonstrar entre si. Tinha uma quase obsessão pela palavra Irmão. Sem esquecer os animais e as plantas, seres vivos como nós.

Em contraste, o livro oficial ilustrava com boçalidade as "diferentes raças humanas”.


Humberto Delgado

Quando em 1958 Humberto Delgado passa por Almada, gera a maior concentração de pessoas, de esperança e de promessa de liberdade que alguma vez vi, mesmo se contarmos com o 25 de Abril. Uma multidão enche vibrante a Praça Gil Vicente, rodeia o candidato, mal permite que o carro avance. As pessoas, aparentemente todas as pessoas, arrancam as flores do jardins e lançam-nas sobre ele que passa agradecendo. Eu nunca tinha visto uma multidão assim e muito menos sabia que os adultos podiam gritar aquelas palavras daquela maneira. Inesquecível.

Dias depois passou o outro. Sei que passou porque no centro da Praça vazia havia um inusitado polícia que fez continência a um Mercedes preto. E também porque na véspera andaram a recolher todos os pedintes de Almada.

Por que conto isto? É que fiquei sempre com a impressão que naquela explosão do Humberto Delgado havia mão da Maria Rosa.

De facto, muitas vezes falando baixo, dava-nos a entender que os portugueses não tinham de viver assim, pobres, analfabetos, com um alcoolismo endémico e patrioteiro, com uma tuberculose que grassava sem penicilina (vi eu hemoptises em plena rua) e sempre com medo.


A Ramona

Para quem não sabe, ramona é como chamávamos aos carros celulares. Havia um certo trânsito delas naquele tempo, fruto das visitas que a PIDE decidia fazer de madrugada. E de dia serviam para intimidar, ou como se dizia, para infundirem respeito.

Um dia estou em casa e ouço um grande estrondo. Vou ao terraço. Uma ramona acaba de estourar um pneu quando descia a Avenida Afonso Henriques na curva para a Cova da Piedade. Adorna e já não anda. Dois polícias saem para verem a coisa. Não há azar é apenas um pneu furado. Mas das bandas da Quinta da Alegria, bairro pobre, surgem mulheres que se vão juntando. E rodeiam os polícias, gritam, puxam pelas portas, abanam a ramona de alto a baixo, já não a largam. E os presos conseguem escapulir-se! Posto o que o magote se desfaz num ápice. Só lá ficou a viatura vazia. E os polícias.

Chego à escola e conto. Rimo-nos muito, muito, sem palavras.


Cozinha

Em muitas ocasiões a minha casa foi a continuação da minha escola. Nos dias de maior entusiasmo subia para um banco mesmo no centro da cozinha, onde tudo acontecia, e de livros em riste desatava numa sabatina impiedosa sobre quem ousasse passar por ali: Vá, digam lá, como se distingue uma estrela de um planeta? Por que se chama Via Láctea à nossa galáxia? Por que falham as provas dos noves? Como se encontra a Estrela Polar? Como foi decidido o meridiano de Tordesilhas? Como se escreve “Nós comemos a noz”? etc. etc.. E os meus pais e os meus avós, desprotegidos, lá iam tentando jantar, acenando que sim e que não com a cabeça às minhas perguntas.

Depois chegava o meu primo Edmundo, que era músico e por isso jantava mais tarde, e com ele a conversa deslizava com facilidade para as mesmas estrelas, planetas e cometas, mas desta vez incluindo marcianos e discos voadores. Até porque eu, para além de bancário também queria ser astronauta.

Entre a escola da Maria Rosa e a cozinha da minha casa havia uma comunicação invisível, telepática, de astro a astro.






As Esferas Celestes

Andar com a professora para todo o lado, embora não fosse o único, poderia ter-me dado enormes dissabores. Como seria fácil de esperar por parte dos mais crescidos, os que ostensivamente se sentavam lá atrás, malta de voz grossa, que fumava e bebia e tudo o mais. Mas o que é certo é que a consideração pela professora Maria Rosa era tão grande que eram os próprios matulões a protegerem nas alturas certas este seu raquítico colega.

Dava-me tão bem com eles que acabei por aproveitar a situação, estabelecendo com alguns um prosperíssimo comércio: Trocava o meu lanche por berlindes. E no espaço de dias dei por mim riquíssimo, com uma fabulosa colecção de berlindes das mais diversas cores, tamanhos e valias. Não riam. Olhem que havia uma hierarquia muito cerrada para os berlindes e alguns eram muito raros, valiam muito, aquilo não era brincadeira nenhuma.

Experimentem colocar um berlinde junto a uma pupila e olhem para a luz, como eu fiz centenas de vezes. Rodem-no. Verão planetas, cometas, outros mundos. Nunca falha, mesmo em adulto.

Agora tenho andado nos sites da NASA e da ESA a espreitar o que há de novo com a sonda Cassini. É o mesmo. Apenas actualizado.


Norte

Para além das redacções do programa sobre as vaquinhas que dão leite ou as árvores que dão sombra, que tínhamos de saber de cor porque uma delas sairia na prova de passagem, também fazíamos outras mais ousadas. Sobre as guerras mundiais por exemplo. Lembro-me que foi nessas redacções que escrevi pela primeira vez Eisenhower e Hiroshima e Nagazaki.

Estou convencido que por vezes a Maria Rosa fazia connosco alguma experimentação, curiosa de ver o que os putos eram capazes de dar. Depois da redacção “Se fosses bicho que bicho gostarias de ser” (elefante, não tanto pela tromba, muito utilíssima, mas pelas enormes orelhas de abano, para me refrescar, este o teor do que comuniquei, eu que já nessa altura penava com o tempo quente), seguiu-se uma bem difícil. Disse: Podem ir para o recreio quando acabarem a redacção cujo tema vou escrever no quadro: Uma Viagem à Morte. É verdade, assim mesmo.

Tremi. Tocar no tema podia dar azar. O meu pai podia adoecer. Mas tenho de fazer a redacção se não hoje não saio. E daqui a bocado já jogam. Então faço-me de desentendido. Escrevo uma redacção sobre uma Viagem ao Norte, que metia ursos polares e pinguins. Depois deixo o caderno em cima da carteira como era costume e disparo a correr pelas escadas abaixo na direcção da bola.

No dia seguinte sou recebido com um sorriso cúmplice. Escapei.

Hoje escrevo sobre a morte da Maria Rosa. Hoje não escapamos.

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Eu podia estar aqui a noite inteira a contar-vos coisas da Maria Rosa. E de como agora é difícil falar da sua partida. Olho de novo para o telejornal, mas não há rasto. E o meu coração começa lentamente a perceber. Perceberá melhor mais tarde, não já, que a vida duvida sempre da morte.

Que fazer para colocar uma flor na sua memória, eu que sempre achei que o que é dito nos funerais apenas acentua o vazio e o incompreensível?

Abro a última gaveta da minha secretária, aquela onde costumo esconder coisas atrás do tempo, coisas que levo anos até poder pensá-las livremente, e tiro uma pequena carteira que há 40 anos me trouxeram da mítica América. Lá dentro há uma fotografia dos meus pais, tirada por mim (por que não fotografei eu a minha querida professora primária?!). E há também um cartão de visita. No verso, com uma letra desenvolta e inteligente mas com uma tinta subitamente esmorecida, diz em maiúsculas, «O ANTÓNIO JOAQUIM E O VÍTOR FIGUEIREDO SÃO DOIS POETAS PREGUIÇOSOS QUE – ÀS VEZES – GOSTAM DE SONHAR. DAR-ME-IAM GRANDE ALEGRIA SE TRABALHASSEM SEM DESÂNIMOS, COM ESPERANÇA E MUITA CORAGEM».

E na face do cartão: «Um beijo da vossa» Maria Rosa Colaço.

Na era da Internet gostaria de partilhar este cartão com os meus colegas de turma, putos que nunca mais vi, e que estarão algures por aí, mais os que já partiram, como o Luís Filipe e o Telmo. Com esses da minha escola e com os de todas as outras escolas por onde ela passou, nas várias partes do Mundo.

O cartão está no topo deste blog. É vosso.

17 de Outubro de 2004

António Matos Rodrigues

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Notas:

Fotos minhas, excepto se houver indicação em contrário.
Agradeço à minha filha
Joana Saramago a paciência que tem tido na orientação do design deste blog.






6 Comments:

Blogger jojo disse...

Se não fosse a Maria Rosa Colaço a entrar na vida do meu pai, eu hoje tinha um pai vulgar em vez de um pai capaz de escrever coisas tão bonitas sobre a sua querida professora.

Joana

12:31 da tarde  
Blogger José Rabaça Gaspar disse...

Já deixei uma mensagem há uma semana. Não dei conta de que os "meninos e meninas da ROSA" estão a aparecer.
Remeto para alguns "posts" da http://paixaodaeducacao.blogspot.com/ e outros "blogues" relacionados, para que, para além deles, apareçam também as "ROSAS" e os Meninos "com alma de poeta" dos anos 70, 80, 90... e este vosso "blogue" cresça e se transforme numa fonte de criatividade e esperança.

4:29 da manhã  
Blogger José Rabaça Gaspar disse...

Continuo a apreciar as mudanças deste BLOGUE e venho de novo aplaudir a iniciativa e os "meninos" e "meninas" dos anos 50 e 60 que estão a aparecer. Além dos novos "posts" que têm aparecido, mesmo o 1º está a melhorar... apesar de longo, creio que é importante LER-se BEM, até por ser o 1º e a letra pequenina não ajuda. Aquela parte do - antes e depois - está melhor.
SUGESTÃO - Para que o tempo não deixe MORRER esta RESSURREIÇÃO da ROSA, proponho que mesmo os poucos "MENINOS" da ROSA já localizados promovam um ENCONTRO por aí num "tasco" de CACILHAS ou no Fórum Romeu Correia e abram o ENCONTRO aos Amigos e Admiradores da ROSA, do/s LIVRO/s da ROSA, das IDEIAS da ROSA para voltar a SONHAR AGORA/AQUI que «O Amor é um pássaro verde num campo azul no alto da madrugada» (victor barroca p.17) e que «a morte é sossego e flores» (victor pinho, p. 61).
ENCONTRO DOS AMIGOS DA ROSA - DIA ??? NO LOCAL???...
Abraço de José Rabaça da paixaodaeducacao.blospot.com, do sistemaEsColar.blogspot.com. e de www.joraga.net

1:30 da manhã  
Blogger António Matos Rodrigues disse...

Caro José Rabaça
Vou tentar mudar de template, talvez mais largo e com letra maior. Quanto ao resto se houver aderentes um dia destes podia-se tentar qualquer coisa.
Um abraço.
A.

2:54 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

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2:39 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

A todos aqueles que estimaram,admiraram e continuam a ter a minha Mãe presente, partilho a mais recente Homenagem prestada pelo Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio:
A Comenda da Ordem da Liberdade
Lisboa, 5 de Maio de 2006
Vasco Malaquias de Lemos

6:54 da tarde  

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