segunda-feira, novembro 01, 2004

Aquele telefonema matinal

A voz de Maria Rosa chegou-me, emocionada e tranquila, quando saí do estúdio. Tinha terminado mais um "Programa da Manhã" na Rádio Comercial, estendem-me o telefone e ali estava uma voz desconhecida dizendo-me que tinha ouvido o programa viajando num autocarro, da margem sul para Lisboa. E que vinha retribuir-me os apelos à alegria e os votos de bom dia com que eu tinha pontuado aquela hora de emissão.

É verdade que, naqueles idos de 80, fazia os meus programas convicto de que uma antena de rádio era um bem público que deveria levar aos ouvintes algo mais do que publicidade, música e previsões meteorológicas. Mas nunca ninguém, no fim de um programa, me telefonara para conversar sobre isso de forma tão cristalina e autêntica.

Foi assim que nos conhecemos.

Seguiram-se conversas esporádicas, entrevistas que lhe fui fazendo na rádio e na televisão por causa dos seus livros, encontros fraternos que o acaso se encarregava de nos oferecer. Até que, já em 90, peço a Maria Rosa a sua presença num livro de fotografias que eu estava a preparar. O projecto era simples: escolher uma das minhas fotografias e, a partir dela, compor um poema. Generosa ( ela foi, acima de tudo, uma mulher capaz de generosidades infinitas...) escolheu não uma, mas sete fotografias, e deu-me sete preciosos momentos de poesia. Estão todos nesse livro que saíu em 1990 com o título " A Meu Ver ", de onde agora recolho este poema, onírico e enxuto, feito para a imagem de um pintor que surpreendi desenhando um pássaro, em plena Place du Tertre, em Paris.


[Foto: Carlos Pinto Coelho]


Veio de longe tão longe
o pássaro azul.

Trazia rumos e sonhos
o pássaro azul.

Há tanta gente esperando
o pássaro azul.

Espera-se que o pintor
devolva breve as asas
ao pássaro azul.

E que o fotógrafo
rapte rápido
o voo do pássaro azul
no contraluz
do poema.

[Poema: Maria Rosa Colaço]


Aqui deixo esta memória grata de quem, numa certa manhã dos idos de 80, fazendo uma rotineira viagem de autocarro, foi sensível a um apelo à alegria. À alegria que, afinal, ela já trazia, transbordante e enérgica, dentro de si.

Carlos Pinto Coelho
Jornalista
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Este blog agradece ao jornalista Carlos Pinto Coelho o seu tão pronto e generoso contributo.
A.

1 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Testemunho interessante. É bom tomarmos conhecimento de tudo isto. E que bela fotografia esta, tão simples.
Alguém

2:46 da tarde  

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